sábado, 4 de março de 2017

Em memória.

Busco cada lembrança da nossa infância
E a sua risada e ingenuidade é o que mais me marca.
Sempre doce e calmo, engraçado e bobalhão.

E depois de adulto todas as distâncias a vida nos impôs
Não ter tempo para lembranças é o que mais nos dói.
E quando notamos que alguém partiu...
Nada mais adianta fazer.
Tentamos chorar pra colocar pra fora
o mar escuro do nosso coração.
O que sobra é o desejo de que vá em paz:

Meu primo. Meu irmão. 

Discutindo o racismo texto 2 - Desconstruindo Ruth Catala



Viralizou desde sexta feira (03/03/2017), (recebendo a coroa de quase branca pela MBL) um vídeo de uma youtuber falando ainda sobre o caso da garota branca que foi supostamente agredida por usar turbante.
Neste vídeo, Catala fala sobre vários temas que a comunidade preta vem discutindo na internet, desmerecendo-os todos, e taxando as lutas de diferentes comunidades como “mimimi”.
Durante essa história toda do turbante, alguns vídeos falando sobre o tema circularam bastante pela net. A maioria desses compartilhadas por negros, (falando de uma esfera pessoal apenas um branco no meu ciclo de conhecidos compartilhou a visão de um negro sobre o caso. Enquanto vários outros brancos quiseram entrar na discussão contra o termo apropriação cultural e até mesmo negando o racismo.)
Já o Vídeo da Ruth está sendo compartilhando por negros, brancos e não negros. E grupos como MBL que se posiciona sempre contra as minorias estão a aplaudindo de pé.
Primeiro, vamos parar e pensar porque um negro falando de racismo é como se falasse ao deserto? Porque quando o negro sofre o racismo ou se pronuncia sobre ele, o silêncio e a inação é o que predomina?
Por outro lado, se um negro disser que nunca sofreu racismo, que não se ofende com piadas preconceituosas e que acha todas essas discussões sobre discriminação são mimimi, pessoas de todas as cores vão se pronunciar e concordar com ele?  Darei meu parecer sobre isso ao final do texto.
Agora, vamos falar dos argumentos de Catala; Ela inicia falando que não usa turbante como valor cultural, apenas por ser livre e por achar bonito. Ok, para uma angolana que cresceu rodeada de pessoas usando turbantes o valor do acessório é completamente diferente que para um brasileiro, já que o uso de turbantes durante muito tempo foi sempre segmentado e o uso dele sempre foi visto com maus olhos.
Neste trecho também ela começa o deboche sobre a postura dos negros, levando para o geral uma atitude que é bem pontual e que a chance de acontecer é bem pequena (um negro atacar uma pessoa branca por uma questão ideológica).
Ela contra argumenta a apropriação cultural dando o exemplo de “quantas coisas que não são de nossa cultura estão em nossos guarda-roupas e que nós usamos”.  Em uma sociedade igualitária onde o negro não foi escravizado e vários de seus costumes culturais reprimidos, esta fala seria corretíssima. Porém no nosso mundo, não é tão fácil buscar viver por nossa cultura. Em um contexto de globalização então... A nossa escolha sobre o que consumimos é bem reduzida.  
Novamente, ela parte do micro, falando sentimentalmente da pobre menina com câncer. (torço pela melhora dela e que ela possa usar turbante, peruca e seu próprio cabelo)
A gente como negro em todo lugar, temos sempre que tomar cuidado com nossas atitudes, pois cada erro nosso, nunca é só um erro pessoal. Se faço algo errado já ouvi várias vezes um “olha lá, serviço de preto”.  Então essa suposta ação de uma negra que ninguém sabe se aconteceu da forma que foi narrada, acaba sempre sendo ampliada a todos os negros e vão usar outro estereótipo “Nossa, esses negros são tão agressivos... como pode atacar uma menina com câncer por um simples turbante”
Se existe um movimento negro que está saindo pelas ruas cortando dreads, tranças e arrancando turbantes de todo branco que encontra pela frente, eu não estou sabendo.
Se esta é uma pauta em qualquer lugar, uma luta, como Catala fala no vídeo. Eu não estou sabendo também.
“é por causa de atitudes de negros como a que abordou a Tauane é que a luta de muitos negros é ridicularizada” ?
Não, com atitudes ou não como essa, a luta de negros é sempre ridicularizada. Como ela mesmo acabou de fazer. Usando novamente, uma perspectiva pessoal para falar de toda uma estrutura que tenta sempre desvalidar a luta do negro.
Meus amigos! Negros foram esquartejados, enforcados, queimados e até hoje são presos em postes ou assassinados por nada (apenas por serem negros, e por um branco ou não negro, achar que aquele não era seu lugar). Em casos como esses nunca alguém grava um vídeo para falar “Olha como todo Branco é perverso e violento...”
Ano passado, com a polemica do Oscar sem negros muitas pessoas falaram como Ruth “o mundo com tantos problemas e vocês brigando por indicação em Oscar?”
Não Ruth e turminha, a luta por menor que possa parecer é uma só: a luta é para sermos visto como seres humanos, de que nossas histórias possam ser contadas e que possamos ser o que a gente quiser, sem medo e ser reconhecidos. Será que sem a luta de Spike Lee ano passado Moonlight ganharia algum oscar este ano? Será que teríamos destaque para produções de negros como teve este ano? Claro que não.
Ai a nossa queridinha dos brancos vai dizer “para de gritar que você é negro e enfiar sua arrogância blablabla, coisa de cachorro que blablabla” E lista grandes personalidades que não brigaram por turbantes, como se existisse algum negro brigando na câmara dos deputados por uma lei que proíbe brancos de usar turbante...  E é aqui que a galera começa aplaudir. Porque é uma negra diminuindo negros. Uma negra falando para você calar a boca, algo que todo branco racista gostaria de dizer, porém pela luta de tantos, cada vez mais estamos tendo direito a fala.  Nesta parte ela busca demonstrar conhecimento das causas negras, citando a frase mais batida de Nina Simone... Fala pro negro ir estudar, o que é um conselho sempre válido. Mas como se só ela o tivesse feito, e que todas as outras pessoas são tapadas. 
Nossa amiga até aqui, já usou grande parte do repertório de pessoas preconceituosas “mimimi” “vitimismo” e o racismo reverso vem em seguida com as frases “Negros querem mostrar que podem escravizar os brancos?” “Todo mundo sofre algum tipo de discriminação” então parem de ser vitimistas...  Então esse tal de racismo é coisa pequena... uhum... senta lá Ruth.
Não vou perder tempo falando sobre Racismo estrutural e suas consequências. Mas em nenhum momento uma luta contra qualquer tipo de preconceito foi desmerecida por algum movimento negro. Nunca se ralativisou “ah mas o preconceito de gente gorda, gay ou gente alta é mimimi, vitimismo” Porque usam esse argumento para desmerecer o racismo?
Ai ela vai dizer que a discriminação hoje em dia não é tanto racial, é econômica... olha só! O capitalismo foi muito bom com os negros. Existem milhões de famílias negras produtoras de chocolate MILIONÁRIAS. Milhares de extratores de diamante negros, donos de mansões iates e etc. Dados comprovam que a renda média de negros, hoje em dia são igual ou maiores que a de qualquer branco. Só que não.
OS últimos 3 minutos de vídeo são uma idiotice atrás da outra atacando várias manifestações negras de maneira rasa. E a parte que tanto negros quanto brancos adoram. “olha, nem sempre que alguém pergunta se vc trabalha aqui, ela está sendo racista” Caramba Ruth, sério? E eu aqui sofrendo atoa todo esse tempo!
“Se um branco vestir uma camisa orgulho de ser branco e sair pela rua, é capaz de ser linchado pelos negros” Sério? Que país isso aconteceria?  Talvez se esse branco em questão for desfilar em uma periferia, ou comunidade negra, é bem capaz que não sofra nada, e que alguém mais esclarecido vá conversar com ele e dizer “Cara, eu não sei o que você quer aqui vestido assim, mas pode ser que alguém não seja tão legal quanto eu e não curta muito essa sua postura”. Se essa mesa pessoa andar na Av. Paulista hoje não vai acontecer nada com ela, e se alguém tentar ser agressivo, este orgulhoso branco vai ganhar escolta policial.  
Porque? Branco não é um grupo cultural, não é um país, não é um estilo de vida, não é um estilo de música. É a penas a cor de pele de algumas pessoas, que historicamente, passaram a comandar algumas áreas do globo terrestre. O que essa pessoa que tem orgulho de ser branca está querendo dizer? Ela está querendo apenas atacar as pessoas que não são.
É bem diferente de alguém vestir uma camiseta “orgulho de ser irlandês”, “orgulho de ser Padeiro”, ou até o “orgulho de ser negro” é tão bobo quanto qualquer outro exemplo. Mas é sim resistência, pois em um sociedade que te oprime por ter mais melanina, e que estruturalmente te ensina a ter vergonha de ter a pele escura. Se dizer orgulhoso do que você é, é uma pequena revolução. Uma vitória muito grande para este indivíduo.
Juntando com o deboche sobre uma discussão profunda sobre beleza, representatividade, marcas da escravidão que ela resume “papinho sobre a Solidão da mulher negra” (que a genialidade de Catala soluciona dizendo para as pessoas comprarem um cachorro.)
Chegamos na melhor frase usada por grandes preconceituosos “O grande problema de alguns negros é que eles mesmo se discriminam e acham que todos a sua volta estão fazendo o mesmo” Ela acabou de se resumir, eu imagino. Existem negros que aprenderam a ter vergonha de ser negros, outros negros que nem se consideram negros, isso acontece pelo racismo estrutural (novamente). Essas pessoas são massacradas com mensagens que a rebaixam, as vezes diretamente, as vezes subliminar mente. Elas aprendem a reproduzir o racismo e isso é mais uma perversidade do sistema que Ruth aponta como uma falha ética e de caráter de todo preto.
Após debochar do racismo que muitos sofrem dizendo que “nem sempre é racismo quando...” Ela finaliza sendo obvia e defendo o que todos defendem que “a luta pela humanidade”. Bravo, preta. Você criou um texto muito bem amarrado para agradar brancos e enganar negros como se você realmente estivesse falando para eles.
Concluindo.... porque negros, brancos e não negros vão compartilhar e aplaudir esse vídeo.
Primeiro, porque o texto de Ruth é bem decorado e escrito utilizando o deboche e o micro para falar do macro. Como todo preconceituoso ela busca frases e situações caricaturadas e estereotipadas para falar de um todo. E atribui a toda uma luta negra, questões pequenas ou tratadas de maneira rasa. Utilizando hashtags como Mimimi, vitimismo e etc.  (por isso os branco vão adorar).
Segundo, por ser negra angolana e por uma boa dicção e postura, Ruth inspira credibilidade. E para qualquer negro que não lê e estuda sobre o preconceito, racismo e tem consciência do seu papel social enquanto indivíduo negro. É ótimo ouvir alguém dizer que quem é engajado está de mimimi é vitimista. Pois para esse negro comum, que conta piada sobre racismo, e ri dos estereótipos do preconceito, que casa com a loira (pois o que conta é o amor e não a cor), para o negro bem sucedido e para o que não pensa sobre o preconceito em si. Para ele é ótimo ouvir alguém dizer que não está errado, que os outros são os que estão viajando. É a mesma postura que alguém que come carne e decide atacar um vegetariano ou vegano. A pessoa se sente mal por alguém estar fazendo algo que acredita, se sente inferiorizado por não tomar a mesma atitude e vai querer mostrar pro vegetariano que ele é incoerente, errado, tão assassino quanto quem come carne. E é por isso que os negros vão compartilhar e aplaudir. Porque alguém está o liberando de pensar sobre o racismo e do seu papel social enquanto negro em uma sociedade preconceituosa. Aquela pessoa que “nem é tão negra assim” também vai compartilhar, por não sofrer o racismo ou por ser bem aceita por brancos, também vai compartilhar e aplaudir.
Se você concorda com a fala da Ruth, você precisa muito seguir o conselho dela “vai estudar”
Se você é branco e está compartilhando e concordando com a Ruth, você só quer alguém que te redima do seu preconceito. Seja uma pessoa melhor.
E para todos, vamos parar de minimizar a luta do negro por igualdade contra o racismo. Isso não é mimimi, não existe vitimismo.  


sábado, 5 de novembro de 2016

Discutindo o racismo Texto 1: Piadas racistas

Com Novembro ai, uma vereador negro racista eleito, e alguns casos que ocorreram a minha volta em pouco intervalo de tempo...  Farei uma série de posts para reflexão de todos. 

Textão 1: Piadas racistas
Recebi duas vezes pelo whats (uma no grupo de escola e outra no grupo da família). 
Uma piada racista onde um gênio da lampada (via que a Africa é um lugar pobre) realizava o desejo de 100 negros, e lógico, diante de uma oportunidade dessas o desejo de 99 deles foi de ser branco. Porém o 100º pede ao gênio para todos os outros voltarem a ser pretos.
Nossa... que engraçado. 
Quando falei que a piada não tinha graça e que era racista, as pessoas primeiro diziam "naaao, não tem nada de racismo... podia ser qualquer um é que pegaram o negro... achei engraçadinha..." depois pediam desculpas, dizendo que não a intenção foi das melhores, de fazer rir, e que não eram racistas; uma por ser casada com um negro, a outra por ser negra. 

Então, desenhando: 

Existe uma coisa chamada Racismo estrutural. Ele está presente o dia todo, e faz com que algumas pessoas sejam beneficiadas e outras marginalizadas. Exemplos dele são quando pessoas brancas são preteridas á pessoas negras em empregos, relacionamentos, ou pro time de futebol na escola. 
Mas também na abordagem violenta dos policiais, assassinato de mulheres e homens negros e a condição econômica. Por que? 
Fazem apenas 128 anos que, por lei, os negros passaram a ser considerado humanos (isso mesmo... antes eramos apenas coisas) no Brasil. Liberdade ainda não conseguimos de fato, mas estamos na luta. E não foi uma princesinha branca que conseguiu isso não...
O racismo estrutural faz com que negros se achem feios, fracos, e amaldiçoados de fato. Algo que é implantado em nossas mentes diariamente. Por isso, existem mesmo muitos pretos, (crianças e adultos) que prefeririam ser brancos, pois todo dia, a rejeição, os xingamentos, a violência, convence esses irmãos que são indignos de felicidade e que apenas os brancos podem ser de fato  amados, queridos e felizes. 
O racismo estrutural ainda deixa a maioria dos negros ignorantes, sem consciência do que são, estamos alienados da nossa história. Não sabemos nada de nossos ancestrais, nossa cultura. Achamos que a Grécia, França, EUA, são o sonho e - todo um continente -, como a Africa "um lugar pobre".
Errado. A Africa sempre foi e é rica, inteligente e pioneira. A imagem do negro miserável da Africa é resultado de dominação e doutrinação. Não é uma vitimização - existem pessoas negras sem caráter, humanidade - que massacram outras pessoas negras com o auxilio e respaldo de brancos e outros pretos. Porém existem e existiriam muito mais pessoas negras e conscientes, e se amando e propagando sua cultura, se não fosse o racismo. 
Mas relegados, sem autoestima, estrutura e consciência de sua história o negro é refém. E se tivesse a chance, no lugar de pedir uma vida digna, escolheria o caminho mais rápido: ser branco.
Por isso a piada não é nada engraçada. é puramente cruel.

Por último, o 100º negro, que ria de todos os pedidos dos outros, usa sua chance para reverter o desejo de todos os outros. 

Este seria o "Tempo Cômico" da piada... 

O que ele quer dizer:
O negro malandro, que prefere mais a zoeira do que a chance de pedir algo pra si mesmo,  usa a mágica do gênio, não só para frustrar outros 99 de seus semelhantes (diante da maravilhosa perspectiva de viver uma vida de branco), mas demonstra todo o seu egoismo e imediatismo preferindo rir dos outros do que "fazer o bem para alguém" ou para si mesmo.       

Então, não é só uma piada... é uma propagação ideológica e racista de uma imagem do negro. 

COMPARTILHEI E DIFUNDI O RACISMO, E AGORA?
Sim, mesmo você casando, namorando, ficando, tendo um amigo, tio, primo, irmão, tatuagem do Michael Kyle ou Tupac, ou sendo negro... Você pode ser racista/reproduzir o racismo (intencionalmente ou não). E pode ser preso por isso. Mas mesmo que não seja, você será uma pessoa escrota. negar ou concordar com essa postura não ajuda. 

Se foi sem intenção: Peça desculpas, aceite que foi/reproduziu o racismo, escute e não repita. Não tente relativizar, negar ou diminuir "ahh mas vcs veem racismo em tudo... também não é assim... foi só  uma piada...". Não seja essa pessoa. 

Se foi com intenção: Você é um ser escroto, que usa de sofrimento e massacre de uma etnia que já dura séculos, para se sentir superior... mas na verdade você é uma "coisa", "pior que a mosca do coco do cavalo do bandido". Repense seus privilégios regados a sangue de pessoas inocentes, tente ter empatia pela vida dos outros e evolua...
Se você é casado, amigos, primo de negros isso não te dá passe livre para ser racista. 

Se você é negro e é intencionalmente racista (como aquele cachorrinho adestrado do MBL):
Saiba que você está sendo usado, sua baixa-autoestima e desconhecimento da sua cultura te faz um simples inseto peçonhento que tenta ter a atenção de pessoas que te consideram um lixo e riem de você pelas costas. 

Saiba que você e seus ancestrais são lindos, inteligentes, criadores de grandes civilizações e que você não tem "um pé na cozinha" ou "um pé na senzala". Nosso povo não nasceu escravo, foi escravizado. Você tem um pé na Africa.

Se você não é ignorante e fez uma escolha consciente de mesmo sendo negro ser um racista... amigo... só tenho nojo de você, e não se sinta importante, você não vai conseguir parar a luta ou a evolução das pessoas. Será apenas mais um capitão do mato, traidor repudiado por todos.  

Pare de se odiar. Se conheça e se ame, ame seu semelhante e ao próximo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Critica Filme " Mundo deserto de Almas Negras" O racismo como sempre vemos e da pior forma.


Ontem fui assistir ao “Mundo Deserto de Almas Negras”, filme que estava muito interessado em ver já faz algum tempo. Porém diante dos espaços e horários reduzidos de exibição, ainda não tinha conseguido conciliar em minha agenda.  

O interesse surgiu através da página de divulgação no facebook, onde além da chamada “O Racismo como você nunca viu” disponibilizava o trailer muito bem feito e atraente, que vendia um filme elegante, com ótima fotografia, um suspense noir com atores negros em papéis principais e atores branco em papéis menores, sugerindo uma inversão do racismo estrutural.
Quanto a isso, o trailer não enganou: “Mundo Deserto...” é realmente um belo filme no quesito de fotografia, figurino, maquiagem e design de som. Contando com momentos cômicos e de tensão, algumas interpretações muito boas e uma trilha, apesar de caótica, no mínimo interessante.
Infelizmente meus elogios para o filme ficam por aqui, porque a começar pelo título, o filme repete “O racimo como sempre vejo”.

O nome do longa foi inspirado na música “Mundo deserto” de Elis Regina, onde a palavra “Almas Negras” é usada como adjetivo negativo, e durante toda a projeção o diretor Ruy Veridiano vai destruindo a ambiguidade inicial para afirmar o negro como algo ruim, sem sombra de dúvida.
Então, vamos falar do roteiro... Em uma sociedade onde os negros estão controle socioeconômico vivendo nos centros urbanos e ocupando grande cargos de poder, os brancos são relegado aos guetos e empregos de serviços mal remunerados. (Uma ideia já utilizada em Hollywood no filme “A Cor da fúria” – Withe Man’s Burden – de 1995).

O Advogado bem-sucedido Oscar, nos é apresentado em um momento tenso da sua vida: preste a fechar negócio com um grande cliente, uma promoção para sócio da empresa onde trabalha e com um filho recém-nascido.  Ou seja, tudo vai perfeitamente bem. Exceto que este grande cliente é um poderoso cabeça de uma facção criminosa e quer que Oscar quebre sua ética e seus princípios, para alcançar o sucesso. 

A partir daí, a vida de Oscar sofre uma reviravolta e ele conhece o criminoso Paco e coloca em perigo não só a sua vida, como a de sua mulher e filho.
A proposta de Ruy é muito interessante, porém o mote principal – a inversão da lógica social – é feita de maneira preguiçosa, previsível e porque não dizer, racista. É divertido ouvir expressões como “um Brancão perigoso”, “arte europeia primitiva”, “branco parado é suspeito”, e outras expressões racistas que já cansamos de ouvir por ai, mas tirando isso, o filme seria o mesmo sem essa pitada de “ficção histórica surrealista” fosse retirada do roteiro.
Digo isso porque, o diretor não buscou utilizar o conceito para reinventar a nossa realidade, mas puramente inverter. Com algumas exceções, roupas, estética, músicas, seguem o padrão da nossa sociedade (dominante branca).


Como assim, negros controlam o mundo, mas nosso padrão social, cultural, estético e religioso não é dominante na sociedade? Durante todo filme não vemos um artista plástico negro ser citado (mas citam Van Gogh), Nossa moda, com padrões de tecidos característico, turbantes são relegado para alguns personagens caricatos. Não temos uma representação de como seria uma arquitetura afro-brasileira, ou o design de moda, decoração... nada. Nem ao menos um nome de orixá é citado, no lugar, existe o culto ao Lúcifer em contraponto a Deus. Em resumo, o filme seria o mesmo se não existisse essa inversão. Porque então para Veridiano, seria preciso uma ficção para um negro ser um advogado poderoso e morar na Av.paulista e brancos serem criminosos? Fica a dúvida.

E o que dizer dos personagens? No primeiro ato do filme somos apresentados ao nossos protagonistas negros, que aparentemente não possuem nenhuma virtude... A começar pelo prefeito de São Paulo, um corrupto, covarde e fraco, que em sua primeira cena aparece pedindo força de joelhos para um bode...; ou sua assessora, manipuladora, calculista que está apenas preocupada em vender seu candidato da melhor maneira, custe o que custar, vendo sua profissão de maneira sínica e pessimista; O melhor amigo de Oscar, também advogado, é um viciado que gasta seu dinheiro com prostitutas e jogos de azar. Por fim, o próprio Oscar: ganancioso, mentiroso convicto, um libertino que trai sua esposa e “não consegue amar uma mulher só”. Ao longo do projeção vai perdendo cada vez mais sua humanidade.

Já na segunda parte do filme, conhecemos melhor Paco, um membro perigoso da “fraternidade” que foge da prisão no Induto dos pais, para visitar a mulher e o filho que não viu crescer, e buscar a liberdade para ele e para a linda família loira de olhos azuis.
Ao contrário da fotografia sombria de toda projeção, é em Guaianazes, lar de Paco, onde o diretor escolhe depositar todo o amor, cor e alegria do filme. Paco é um romântico, que quer salvar sua “loirinha” e seu moleque da injusta vida que os playboys negros o impuseram. Em certo momento do filme Paco acusa Oscar de desumano “Como você pode deixar um homem morrer na sua sala e não oferecer ajuda?” e posteriormente o roteiro vai confirmar essa visão com três tiros secos a queima roupa. Em contra partida, o filme não oferece nenhuma imagem ou referência de bondade ou virtude em nenhum personagem negro, como se ao ter poder nós nos tornássemos os piores carrascos, e até mesmo o mundo dos ricos que dominamos é tomado unicamente de sobras e imoralidade.

Ai você vai dizer “Mas esse é o sentido do filme, fazer o branco sentir como é o racismo e despertar a empatia... a ambiguidade é a sacadinha do roteiro! Há”. Não meu amigo, esse é o puro e comum racismo que vejo todos os dias. Talvez por isso ao passar por uma blitz no inicio do filme, Oscar está tenso e seu motorista branco diz “Eu também não gosto de gambés, senhor”... Como assim? Por que nessa realidade o negro ainda teme a polícia? Por que o policial pergunta de se Oscar consumiu entorpecentes e se recusa a acompanhar um “cidadão de bem” abalado até seu apartamento?

E porque Ruy Veridiano vende seu filme como um filme de negros, quando na verdade, seu público alvo,  tendo em vista o roteiro e o herói branco em busca de redenção, seriam seus semelhantes?
Não vou dizer que essa postura racista do diretor foi intencional... mas assim como Tim Burton, na polemica recente de não ter personagens de diferentes etnias em seus filmes, Ruy contribui apenas com o racismo velado e estrutural, e nega aos negros uma possibilidade de se reinventar como indivíduos autônomos. Ao decorrer do filme, essas questões foram me ocorrendo, e fiquei fui percebendo algo errado. Essa não seria uma visão de um negro sobre uma sociedade que estivéssemos livre do racismo. Até então não sabia que Ruy era branco, mas senti em cada segundo do filme.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Fragmento de um 13 de janeiro

A história é um  pesadelo de que tento acordar
Os erros são os portais da descoberta

Vença-me, seduza-me. Fique comigo
Ah, faça-me sofrer.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Duas pequenas na manhã

Existem pessoas pela rua
Que preferem ver acidentes fatais
Eu prefiro olhar para o céu fugaz.
______  # _______
De tanto a-mar
Se afogou
(Este segundo não sei se já existe)