domingo, 18 de novembro de 2007

Devaneios "sobre o inconcebível" e "Fada"


 

 

Estes dois textos foram publicados no meu blog www.desenhosedevaneios.blogspot.com ... Divirtão-se!

 

 

Sobre o inconcebível

 

Há quem um dia dirá

Que em seu caminho

Nada se cumprirá

 

Este alguém em constate conflito

Vai se desfazer aflito,

Quando de longe o avistar

 

Montado em sua glória

Vestido de vitória

Com muito para contar

 

Não completo, no entanto,

Pois seu coração ingrato

Não quis te acompanhar

 

Vagueia ele e tão triste

pois perdido existe

e não vai se encontrar

 

Mais para aquele que o inveja,

A tua total felicidade festeja

Querendo no fundo te apunhalar

 

Com asas cortadas por mentiras

Correntes mais fortes que a saudade

Vê seu amor seguir as sereias.

 

E há quem um dia dirá

Que é impossível infeliz estar

Pois de fora é fácil dizer

Mas só de dentro pode se perceber

O que para os outros é inconcebível...

 

Fada

 

Fadados à imensa solidão

Vivendo em tristes pesadelos

Fugindo de seus medos

Mas sempre caindo mais no abismo

                    

Suas asas a tiram do chão

Mas não lhe dão liberdade

Pois a onde for será perseguida

Se esgueiram por sua vida

 

E se ao menos o dia nascesse

E se ao menos o sol chegasse

E levasse consigo todo medo

E lavasse a sobra do que foi perdido

 

Nos olhos que fechados se contorcem

Nos braços que apenas não obedecem

Revela-se a triste certeza

Que somente dor lhe trás a sua beleza

 

Em florestas mais densas que a própria duvida

Entre olhares que uma luz surda

Clareia sons inimagináveis

É onde a levaram por mentes instáveis.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Conto do estranho ao medo e ao fantastico " o começo depois do fim"


 

Este é um ramo de história do meu livro... que fiz um pequeno conto... abraços

 

 

 

O Começo depois do Fim

 

Na vida, temos que fazer escolhas.

Os caminhos que escolhemos decidem nossas vidas, e também os de vidas a nossa volta.

Não consigo acreditar que nas minhas mãos se encontram  não só a minha vida... mas também daqueles que gosto.

Ela não sabia o que iria acontecer. Eu não sabia o que iria acontecer. Aquelas palavras, aquele gesto...

Mudou nossas vidas... Minha culpa... Fiz muitos pagarem pelos meus erros. E agora pago com minha solidão. Estou sozinho agora. E todos que eu amava, não existem mais...

Caminhos...

Escolhas...

Sempre penso que isso tudo é um pesadelo e que vou acordar, suado e assustado, e vou te encontrar do meu lado, e irá me acalmar, me tomar em seus braços, colocará  minha cabeça em seu colo, vai me ninar e dizer que me ama.

Minha narina começa a arder, meus olhos a lacrimejar, o que isso? Lágrimas?

Eu não tenho nem ao menos direito de chorar, a dor do arrependimento é grande demais.

Às vezes ainda vejo vocês... No quintal, brincando, em um belo dia de sol... Sobre vocês a nossa àrvore. Tudo era tão perfeito...

Mesmo as brigas, que eram poucas, e que sempre acabavam com a gente caindo na gargalhada.

Mas agora vendo essa casa escura, são apenas cinco horas, os cômodos vazios e silenciosos. Em cada canto fantasmas de dias felizes.

Pergunto-me se existe uma outra realidade, um outro mundo, onde nós ainda estamos juntos, onde eu fiz a escolha certa.

Um mundo em que eu não fui egoísta, ganancioso, e obcecado, um total idiota.

 É melhor eu sair daqui, devo fazer o que tenho que fazer, esta casa não pertence mais a mim. Este mundo não pertence mais a mim, agora a única coisa que tenho é este livro maldito, que me trouxe até aqui.

O endereço que ele me deu fica perto daqui, vou a pé mesmo, não tenho pressa.

Devo buscar respostas, pois não acredito que ele tenha vindo até mim, sem motivo algum... Tem que ter um motivo para eu carregar a morte de todos que eu amei em minhas mãos... Eu não quero e não posso acreditar que tudo isso tenha sido unicamente um acidente, algo aleatório.

 

Merda...

Foi só eu colocar os pés na rua que começou a chover, não faz diferença, ultimamente minha vida tem sido uma tempestade, meu céu esta sempre nublado, e meu rosto sempre chuvoso.

Ela gostava de dias chuvosos, lembro quando éramos crianças, e ela cuidava de mim, dizia que preferia dias assim, pois nós poderíamos ficar juntos o tempo inteiro. E no futuro, sempre lembraríamos um do outro em momentos iguais. Não retribui a todos os favores que você me fez... E acho que nunca poderei fazer isso...

Não há ninguém nas ruas, os carros são poucos e dentro deles pessoas solitárias. Quase não enxergo a minha frente, está tudo tão escuro e triste, mesmo assim é tão belo!

Estou encharcado, totalmente sozinho, quem sabe eu nem exista mais nesse mundo... estou completamente perdido... Com um livro feito de peles e sangue nas mãos...  este livro maldito, cheio de pecados, mentiras e traições. Cheio de almas perdidas.

A noite caiara rapidamente, a minha frente os caminhos se abriam para o meu destino. A única coisa que me restava na vida era aquele encontro, aquela conversa com um estranho, em uma casa abandonada coberta por folhas e galhos secos, esquecida, construção cujo tempo conseguira transformar em palcos de lendas de assassinatos, monstros e fantasmas.

Porém eu sabia que a única coisa que ela escondia era alguém sem medo, sem dor, sem sonhos nem amores. Alguém sem saudades. Alguém sem alma.

Cheguei ao endereço, o cenário não poderia ser mais clichê. Aproximei-me do grande portão de ferro ladeado por muros altos. E agora? Como era de costume em filmes de terror classe “b”, e “c” nesse momento os portões se abririam para mim com um estridente ranger do metal enferrujado. E talvez por isso tenha me assustado tanto quando ouvi uma voz um tanto distorcida questionando quem eu era.

Olhei para o lado e avistei o interfone meio camuflado entre as trepadeiras, disse quem eu era e com quem eu queria falar. Bom, por enquanto não havia nada de anormal, alguém, supostamente o porteiro, acabara de abrir o portão automático, e finalmente: o ranger.

Ao ultrapassar aqueles muros, uma estranha sensação de dejavu me toma, aquilo tudo parecia tão familiar, era como estar voltando para casa...

A chuva agora caia fina, quase desistente, o caminho é escuro nessa noite sem lua, alguns lampiões acima da trilha de concreto me mostravam qual o caminho a seguir. Talvez, há dois anos atrás, se tivesse feito à escolha certa... não estaria   caminhando no desconhecido, envolto em brumas de remorso.

A distancia era curta e rapidamente alcancei a casa, olhei para o livro em minhas mãos que ao contrário de mim estava totalmente seco. Abri a porta e entrei sem ao menos bater. Precisava de respostas.

Dentro da casa, seu aspecto era totalmente diferente do que aparentava por fora. Uma sala ampla, decorada com tapetes, quadros e belas estátuas, não pareciam corresponder aquela pequena fachada caindo aos pedaços que tinha acabado de avistar. O silêncio era quebrado apenas pelo ranger da madeira no andar superior e o barulho do relógio antigo ainda funcionando na sala.

Entrando no cômodo, de costas para mim, alguém aguardava sentado no sofá, logo me apresento:

— Olá, foi você que me chamou aqui? Vamos acabar logo com isso tudo, como combinado, eu trouxe o livro e...

Surpreendi-me ao finalmente me aproximar e ver o rosto do sujeito que eu pensara ser um desconhecido.  Um confuso misto de sentimentos não me deixou ao menos terminar minha frase, o ódio se contrapunha a uma feliz e nostálgica lembrança. 

— Carlos... — disse ele com um estranho sorriso — você era a ultima pessoa que eu esperava encontrar aqui!  

Mesmo não acreditando no que eu via e ouvia, extremamente confuso, não pude conter uma gargalhada diante de tal ironia.

— Hahaha, eu é que deveria dizer isso!— como se o fato chegasse agora a minha mente, meu sorriso morreu ao lembrar do corpo de Pedro desfalecendo após ser perfurado por aquelas horrendas garras — Afinal, você está morto, eu o vi morrer!

— Quem é você! O que está acontecendo? Você não pode se... ser.. ou pode...?

Após tantos acontecimentos inexplicáveis nos últimos meses, não acreditava que ainda poderia me assustar e surpreender.

Pedro me observava, com um olhar mais perdido que o meu, em seguida desviou o rosto, observando agora o vazio, perdido em outras dimensões.

— É, também não consigo entender...— disse ele, ainda distante— Aquela dor tremenda, a última lembrança que tenho é aquela coisa perfurando meu peito,  depois tudo se tornou escuridão... 

Passos na escada anunciavam que alguém finalmente viria nos receber.

— Mais essa agora, em busca de respostas encontro um suposto morto – vivo — fui em sua direção, vi em seu pescoço o pingente que sempre carregara consigo, um pequeno cisne, uma de suas poucas boas lembranças. e duas marcas pequenas. Novamente me vi invadido pela sensação de já ter vivido esta mesma cena, segurei seu pulso tentando sentir seus batimentos cardíacos, infelizmente ele não pulsava. Já havia ultrapassado a barreira do inacreditável há muito tempo. Sensação entranha de perda e ganho. 

Olhei em direção a escada, onde nosso anfitrião esperava apoiado em uma bengala negra ornada com uma grande pedra vermelha, e pernas cruzadas.

— Desculpem-me a demora, em meio a tantos afazeres em uma noite como essa acabei me atrasando em recebê-los.— tinha no rosto pálido, um sorriso jovial e nos olhos o peso de séculos que seu corpo contradizia — Eu sou Mefis. Carlos e Pedro, venham! A festa teve que começar assim que a noite caiu, mas ela só pode terminar quando vocês, convidados de honra, nos beneficiar com um futuro!

Olhei para Pedro, que tinha agora o seu semblante de coragem e controle como sempre, sorriu e se levantou e seguiu Mefis.

Estranhamente não sentia medo, nem receio de seguir estranha figura pelo corredor em direção, segundo ele, ao porão. Na pior das hipóteses, a morte me cairia bem nesse momento, não a temia.

Descendo as escadas, cresciam os murmúrios, mas cadê a música? Uma festa sem musica, em uma casa medievalmente decorada, cujo anfitrião é um homem de um gosto no mínimo excêntrico, e cheio de mistérios que envolviam minha vida e meu destino. A cada minuto o cenário ficava mais e mais confuso e inquietante. A angústia da espera.

Ao chegarmos me deparei com uma sala que era uma singular mistura de bar, arena e sala de jantar. Mesas e poltronas circulavam um palco que tinha em seu centro uma estranha mesa decorada com pedras preciosas, e ouro, ricamente trabalhada com sofisticados entalhes, e a frente dela um trono com igual acabamento que se repetia nas portas existentes nas extremidades do cômodo. Tudo agora era silêncio, olhei ao redor tentando achar alguma pista do murmúrio que tinha ouvido enquanto descia as escadas, a sala estava vazia a não ser por nós três.

Andamos pelo tapete de prata que levava ao centro da sala. Mefis se sentou em seu trono, ficamos parados a sua frente. Levantou a mão, como que pedindo para que parássemos e disse:

— Entrem amigos. — em todos os lados da sala as portas se abriram, e vindo delas o restante dos convidados, medonhamente belos e elegantes, andando devagar, postavam se em suas mesas, alguns traziam a boca suja por algo vermelho, pude deduzir ao se aproximarem que isso era conseqüência da bebida em suas taças — Agora na presença de nossos convidados, podemos começar nossa tão esperada conversa. Alguma pergunta inicial Carlos?

Agora as portas estavam trancadas, os recém chegados já se acomodaram, exibindo sem nenhum receio suas faces verdadeiras, um doce cheiro de sangue rondava o ar, enquanto longos caninos caiam sobre o pescoço de vitimas cúmplices e dominadas. Estávamos cercados.

— Meu Deus! Carlos, eles... são vampiros!? — gritou Pedro, e sua fala acentuava-se entre a duvida e a afirmação. Ele não devia se lembrar de nada, nem que talvez fosse um deles, ou quase. Eu queria apenas minhas respostas.

— O que é isso tudo? O que quer? Você e este Livro dos Mortos viram de perto minhas escolhas e me guiaram por rituais de sangue e buscas por um modo de abrir um caminho no espaço, e no tempo capaz de trazer a vida todos que morreram por mim, e não encontrei nada!

— Calma, calma... devagar meu rapaz. Primeiro tenho que te dizer que nada lhe foi imposto, você chegou aqui com as próprias pernas. Eu lhe chamei aqui para que você possa começar sua jornada, este livro em suas mãos além de outras coisas é um registro do nosso mundo, o lugar dos mortos. Longos caminhos através de grandes perdas te moldaram para poder em fim chegar... Digamos com “vida”, aonde todos só chegam após a morte.

— O que tenho que fazer para ter minha vida de volta?

— Não tenho essa resposta. Para obtê-la você terá que cumprir o ritual, ir até o mundo dos mortos. E quem sabe você encontre a chave para controlar o tempo ou um caminho para o passado. Mas... você sabe o preço que terá que pagar, já passou pelo louvor e a glória, o ódio e a perda, e agora falta apenas a vingança e a traição.

Caminhos e escolhas...

Olhei para Pedro ao meu lado, ele esteve comigo nesse longo caminho em difíceis escolhas. Ele sabia o que estava acontecendo... e só ele poderia me levar a onde eu queria. Só ele poderia me trair. Mas como? Por quê?

— Carlos, agora eu me lembro o que aconteceu, aquela noite quando finalmente encontramos esse maldito livro, depois de anos procurando. Você tinha tudo... e perdeu em busca dessa coisa, condenou todos ao seu redor.

— Por que está dizendo isso, Pedro? Todos nós tínhamos o mesmo objetivo. Eu, você e a Léx... queríamos trazer nosso grande amigo de volta a vida. Queríamos poder, para mudar nossa realidade. E não medimos esforços para isso, fizemos nossas escolhas.

— Mas a Léx não teve escolha alguma, se perdeu em nossa maldição. Vendemos nossas almas para salvar vidas, mas quantas tivemos que sacrificar em troca?

A nossa volta todos assistiam aos últimos passos que decidiram o futuro dessa e de outra realidade. Alguns riam, outros aguardavam sérios, todos esperavam pela hora de sangue. O ritual.

— Hahaha... Acalmem-se meus rapazes, existem motivos, histórias e planos mais antigos que as mortes que rodeiam suas vidas. E hoje vou dar a chance de vocês aliviarem uma dessas feridas, o que acham? Estão prontos?

Pedro assentiu, sentindo uma culpa eu também concordei, não tinha outra escolha.

— Tragam-na — ordenou Mefis.

A porta atrás dele se abriu, seus subordinados traziam uma mulher amarrada e com um capuz cobrindo seu rosto, amarraram-na a mesa, e a levantaram verticalmente revelando embaixo dela uma rasa piscina de sangue. O Sacrifício.

A mulher tinha o corpo marcado por mordidas, arranhões e hematomas. Não tinha forças para reagir, nem ao menos para lamentar, seus gemidos eram fracos, porém constantes.

Foi entregue a cada um, uma pequena adaga afiada.

— Tudo que precisam fazer é entrar naquela piscina, misturar o sangue de vocês ao resto, em seguida rasguem o pescoço da jovem, e bebam o sangue dela. Depois disso podem retirar o capuz, e em breve o ritual vai terminar.

— Eu não vou fazer isso, não vou matá-la, não darei mais uma vida em troca! Me recuso! — Pedro, ao chegar no final de tão sofrida jornada se entregara.

— Não seja tolo!

Me adiantei, com a adaga fiz um corte em meu pulso, e sem pensar em mais nada degolei a desconhecida, esquecendo todos os meus princípios.

— Maldito! — gritou Pedro a minhas costas, enquanto me debruçava para beber o sangue da minha vitima, não tive chance de me defender. Pude sentir apenas a adaga de Pedro criando espaço entre minha carne. Com a minha adaga encontrei o peito do meu último e melhor amigo, tudo estava acabado.

Minhas forças se esvaíam, tentando me manter de pé, agarrei-me ao capuz da moça degolada. Finalmente selando minha maldição e meu destino. Ouvindo gritos e aplausos da minha platéia, marcado finalmente pela Vingança e a Traição. Vi o rosto da minha vitima, minha linda e amada Léx...

— Parabéns meu rapaz! — disse Mefis em meio a sua gargalhada.

Cai de joelhos em frente ao corpo agonizante de Pedro, ambos sujos pelo sangue da piscina. Uma luz negra fantasmagórica começava a surgir abaixo de nós, rapidamente nos envolvendo. O portal estava aberto. Tudo finalmente estava acabado... ou quem sabe... apenas começando...