segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A arte espetáculo de Ron Mueck



Ontem foi o ultimo dia de exposição de Ron Mueck na Pinacoteca do Estado, uma daquelas exposições que todo mundo quer ir ver, com filas enormes e gente tirando selfie na frente de todas as obras.

Por eu odiar filas, tentei evitar ao máximo e esperava uma alternativa para não passar pelo martilho, porém não teve como, o resultado de tanta enrolação foi que me sobrou apenas o ultimo dia de exposição para apreciar o trabalho do australiano.

Conheci o trabalho dele em algum momento na faculdade, e sempre me interessou suas figuras em grandes escalas com suas posições melancólicas, caras de doente e entediadas.
O hiper-realismo realmente é fascinante e sempre achei que seria mágico estar diante dessas obras.

A sensação real acabou não correspondendo as expectativas (é o que geralmente acontece), mas nesse caso, em especial, foi muito boa a não correspondência para mim como artista. Explico.

Primeiro, as obras mais interessantes de Mueck, que são as de grande escala, não estavam na mostra, somente duas, a do casal de velhinhos e o frango morto. as outras eram as versões menores, que são interessantes, porém não causam o mesmo efeito com suas faces tristes tão pequenas.
Segundo, que não consegui sentir em suas obras um discurso poético verdadeiro. Seus bonecos totalmente higienizados e com suas imperfeições calculadas, parecem dizer muito de uma "punhetagem" técnica e pouco de uma pesquisa em arte.
Senti que suas obras nasceram para ser apenas uma arte espetáculo, a busca do detalhe pelo detalhe, da perfeição apenas pelo prazer da mímese.

O resultado disso é a fascinação imediata do público, que tirava fotos compulsivamente, parando apenas de frente com as obras, as apreciando quase como retratos bidimensionais e transformando-as nisso com suas maquinas fotográficas e Smartphone.

As peças de Mueck, que transmitem algumas narrativas em suas composições, pareciam incapazes de trazer algum incomodo ao publico, apenas o deslumbramento pela representação minuciosa de formas reconhecíveis.
Apesar do realismo, talvez a falsidade, impeça as pessoas de ter alguma empatia... A mímese exuberante é capaz de gerar frases engraçadas como as de uma moça  "Nossa, parece uma pessoa", a de uma menininha "que peru enooorme!" ou de um rapaz "Ele pega uns detalhes né?". Mas parece incapaz de gerar compaixão pela mãe cheia de sacolas com seu bebe preso ao peito, ao jovem negro sangrando, ou o homem nu solitário em um barco.

Quando Mueck tira a escala gigantesca de suas obras, seu trabalho perde 90% de sua força, juntando com a ausência perceptível da passagem do tempo, a limpeza das peles e roupas de seus personagens transformam suas perfeições em mero objeto de decoração. O único registro de tempo que podemos apreender de suas obras é pelo fato de deduzirmos o processo de confecção. Então, os videos mostrando as fases de construção das esculturas encaixam perfeitamente como mais um registro narcisista de seu oficio perfeccionista, eles tem o objetivo de mais uma vez impressionar o público por seu esmero.

Voltando a peça Youth - unica obra que retrata um negro na exposição e também é o único que sangra, com uma ferida em seu tórax, uma cara aflita e os pés descalços.
Chamou-me a atenção, pois é uma obra que foge totalmente das escolhas temáticas das outras expostas.
Todas as outras esculturas estão em estados contemplativos, com semblantes tristes, preocupados, ou alheios, porém nenhuma delas trás uma narrativa de violência, nem mesmo o frango pendurado verte uma gota de sangue por sua garganta degolada.
E foi estranho para mim, ver uma pessoa apontar para o frango e falar "Nossa, igualzinho, tem até os pelinhos que ficam depois que a gente depena ele" e do mesmo modo uma outra dizer "hahaha, olha ali, igualzinho com a cueca lá em cima e a calça lá embaixo".
Levando em conta o perfeccionismo do artista me intriga tanto a escolha da imagem como também o nome "Juventude". O Objetivo pode ter sido o de critica? Uma escolha preguiçosa? Quis mostrar o que vê, como vê?
Proponho o exercício de imaginar todas as outras obras da exposição com a pele negra, e apenas esta como branca. Imaginem, e tentem interpretar essas imagens. Elas ganham bem mais força, porém acredito que neste caso, o garoto branco esfaqueado traria mais comoção. Quem sabe?

Foram 5 horas de filas para 9 obras, mas tudo bem, valeu a pena. Acredito ser positivo essa mobilização do publico para ver exposições, e mostras hypes como essa ajudam a financiar a vinda de artistas que não são tão queridinhos do público, mas que são bem melhores que esses.

Por fim, parabéns Ron, você é muito foda, mas prefiro um Mimo Paladino, um Juan Muñoz, uma Mary Frank ou tantos outros.