quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Critica Filme " Mundo deserto de Almas Negras" O racismo como sempre vemos e da pior forma.


Ontem fui assistir ao “Mundo Deserto de Almas Negras”, filme que estava muito interessado em ver já faz algum tempo. Porém diante dos espaços e horários reduzidos de exibição, ainda não tinha conseguido conciliar em minha agenda.  

O interesse surgiu através da página de divulgação no facebook, onde além da chamada “O Racismo como você nunca viu” disponibilizava o trailer muito bem feito e atraente, que vendia um filme elegante, com ótima fotografia, um suspense noir com atores negros em papéis principais e atores branco em papéis menores, sugerindo uma inversão do racismo estrutural.
Quanto a isso, o trailer não enganou: “Mundo Deserto...” é realmente um belo filme no quesito de fotografia, figurino, maquiagem e design de som. Contando com momentos cômicos e de tensão, algumas interpretações muito boas e uma trilha, apesar de caótica, no mínimo interessante.
Infelizmente meus elogios para o filme ficam por aqui, porque a começar pelo título, o filme repete “O racimo como sempre vejo”.

O nome do longa foi inspirado na música “Mundo deserto” de Elis Regina, onde a palavra “Almas Negras” é usada como adjetivo negativo, e durante toda a projeção o diretor Ruy Veridiano vai destruindo a ambiguidade inicial para afirmar o negro como algo ruim, sem sombra de dúvida.
Então, vamos falar do roteiro... Em uma sociedade onde os negros estão controle socioeconômico vivendo nos centros urbanos e ocupando grande cargos de poder, os brancos são relegado aos guetos e empregos de serviços mal remunerados. (Uma ideia já utilizada em Hollywood no filme “A Cor da fúria” – Withe Man’s Burden – de 1995).

O Advogado bem-sucedido Oscar, nos é apresentado em um momento tenso da sua vida: preste a fechar negócio com um grande cliente, uma promoção para sócio da empresa onde trabalha e com um filho recém-nascido.  Ou seja, tudo vai perfeitamente bem. Exceto que este grande cliente é um poderoso cabeça de uma facção criminosa e quer que Oscar quebre sua ética e seus princípios, para alcançar o sucesso. 

A partir daí, a vida de Oscar sofre uma reviravolta e ele conhece o criminoso Paco e coloca em perigo não só a sua vida, como a de sua mulher e filho.
A proposta de Ruy é muito interessante, porém o mote principal – a inversão da lógica social – é feita de maneira preguiçosa, previsível e porque não dizer, racista. É divertido ouvir expressões como “um Brancão perigoso”, “arte europeia primitiva”, “branco parado é suspeito”, e outras expressões racistas que já cansamos de ouvir por ai, mas tirando isso, o filme seria o mesmo sem essa pitada de “ficção histórica surrealista” fosse retirada do roteiro.
Digo isso porque, o diretor não buscou utilizar o conceito para reinventar a nossa realidade, mas puramente inverter. Com algumas exceções, roupas, estética, músicas, seguem o padrão da nossa sociedade (dominante branca).


Como assim, negros controlam o mundo, mas nosso padrão social, cultural, estético e religioso não é dominante na sociedade? Durante todo filme não vemos um artista plástico negro ser citado (mas citam Van Gogh), Nossa moda, com padrões de tecidos característico, turbantes são relegado para alguns personagens caricatos. Não temos uma representação de como seria uma arquitetura afro-brasileira, ou o design de moda, decoração... nada. Nem ao menos um nome de orixá é citado, no lugar, existe o culto ao Lúcifer em contraponto a Deus. Em resumo, o filme seria o mesmo se não existisse essa inversão. Porque então para Veridiano, seria preciso uma ficção para um negro ser um advogado poderoso e morar na Av.paulista e brancos serem criminosos? Fica a dúvida.

E o que dizer dos personagens? No primeiro ato do filme somos apresentados ao nossos protagonistas negros, que aparentemente não possuem nenhuma virtude... A começar pelo prefeito de São Paulo, um corrupto, covarde e fraco, que em sua primeira cena aparece pedindo força de joelhos para um bode...; ou sua assessora, manipuladora, calculista que está apenas preocupada em vender seu candidato da melhor maneira, custe o que custar, vendo sua profissão de maneira sínica e pessimista; O melhor amigo de Oscar, também advogado, é um viciado que gasta seu dinheiro com prostitutas e jogos de azar. Por fim, o próprio Oscar: ganancioso, mentiroso convicto, um libertino que trai sua esposa e “não consegue amar uma mulher só”. Ao longo do projeção vai perdendo cada vez mais sua humanidade.

Já na segunda parte do filme, conhecemos melhor Paco, um membro perigoso da “fraternidade” que foge da prisão no Induto dos pais, para visitar a mulher e o filho que não viu crescer, e buscar a liberdade para ele e para a linda família loira de olhos azuis.
Ao contrário da fotografia sombria de toda projeção, é em Guaianazes, lar de Paco, onde o diretor escolhe depositar todo o amor, cor e alegria do filme. Paco é um romântico, que quer salvar sua “loirinha” e seu moleque da injusta vida que os playboys negros o impuseram. Em certo momento do filme Paco acusa Oscar de desumano “Como você pode deixar um homem morrer na sua sala e não oferecer ajuda?” e posteriormente o roteiro vai confirmar essa visão com três tiros secos a queima roupa. Em contra partida, o filme não oferece nenhuma imagem ou referência de bondade ou virtude em nenhum personagem negro, como se ao ter poder nós nos tornássemos os piores carrascos, e até mesmo o mundo dos ricos que dominamos é tomado unicamente de sobras e imoralidade.

Ai você vai dizer “Mas esse é o sentido do filme, fazer o branco sentir como é o racismo e despertar a empatia... a ambiguidade é a sacadinha do roteiro! Há”. Não meu amigo, esse é o puro e comum racismo que vejo todos os dias. Talvez por isso ao passar por uma blitz no inicio do filme, Oscar está tenso e seu motorista branco diz “Eu também não gosto de gambés, senhor”... Como assim? Por que nessa realidade o negro ainda teme a polícia? Por que o policial pergunta de se Oscar consumiu entorpecentes e se recusa a acompanhar um “cidadão de bem” abalado até seu apartamento?

E porque Ruy Veridiano vende seu filme como um filme de negros, quando na verdade, seu público alvo,  tendo em vista o roteiro e o herói branco em busca de redenção, seriam seus semelhantes?
Não vou dizer que essa postura racista do diretor foi intencional... mas assim como Tim Burton, na polemica recente de não ter personagens de diferentes etnias em seus filmes, Ruy contribui apenas com o racismo velado e estrutural, e nega aos negros uma possibilidade de se reinventar como indivíduos autônomos. Ao decorrer do filme, essas questões foram me ocorrendo, e fiquei fui percebendo algo errado. Essa não seria uma visão de um negro sobre uma sociedade que estivéssemos livre do racismo. Até então não sabia que Ruy era branco, mas senti em cada segundo do filme.

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