sábado, 21 de outubro de 2017

Discutindo o racismo texto 3 – Nosso cabelo não é ruim, duro ou Bombril – ou o preconceito nas escolas.



Em alguma escola desse pais, poderia ser em qualquer lugar do Brasil, em qualquer cidade, em uma escola pública ou privada, em qualquer época... Uma professora teve a brilhante ideia de decorar um desenho de um boneco com pedaços de esponja de aço... A intenção era das melhores... sem dúvida. Desdobramento didático de um livro infantil “o Cabelo de lelé” que busca falar da beleza do cabelo crespo (apensar de não tão bem, mas isso é assunto pra outro texto).
Poderia ser em qualquer lugar, mas aconteceu em uma escola da periferia de São Paulo em pleno 2017. A professora, inocente... não viu nada de errado, e ainda disse a famosa frase “o preconceito está na sua cabeça”.
Não, se você teve uma atitude preconceituosa, então o problema está na sua cabeça. Pode ser inconsciente, pois o racismo é uma estrutura soterrada durante os séculos como se fosse o normal.
Mas o racismo na escola acontece de formas bem mais sutis também. Um dos mais fortes é o “lápis cor de pele” que na verdade é o rosa claro. Toda aula eu tenho que desconstruir esse conceito que em algum momento foi ensinado na escola ou pelos pais da criança que a cor correta da pele é um rosa que só é parecido com a pele de porco.
Não basta só pegar um livro que “fala” sobre um problema que o racismo criou para os pretos, para dizer que está trabalhando o assunto. É preciso estudar, pois os privilégios da branquetude e o racismo é um problema dos brancos também. Infelizmente, nossos professores não tem tempo pra isso estudar...
E você professor negro, não pode ser um alienado que reproduz o discurso racista e acha que apontar o preconceito é “mimimi”. Essa sensação ruim que você sente na boca do estomago e na garganta não some quando você vira a cabeça e fecha os olhos diante de assuntos racistas.
E professores brancos, não basta pegar uma atividade em que a criança é coadjuvante, e que é toda feita por mãos adultas, (ou nesse caso, a mão adulta não entendeu nada e ainda injeta preconceito nas crianças), colocar o título de um livro sobre a atividade e pronto “está cumprindo a lei e o papel de educador”. Não está.

Não, nosso cabelo não é Bombril, nosso cabelo não é duro e nem feio, sujo ou desarrumado. E não é raro uma criança preta sofrer preconceito por funcionários, professores e seus colegas, por conta do racismo e dos padrões de beleza brancos impostos. A ponto de exigir alisamento, tipos de penteados que só ficariam bem em cabelos lisos, para que? Qual o fundo didático, em que essas regras e exigências racistas buscam trazer de positivo para o desenvolvimento da criança? Geralmente nada. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A história que o tempo contou


O tempo me contou uma história
De um encontro em um mundo sem laço
Dois quase desconhecidos
Na multidão de perdidos,
O arrepio na pele em um abraço


Contou sobre o brilho do sorriso
Mas que os olhos ficaram escondidos
Num mundo sem gosto (sal não basta)
Sinceridade era seu tempero
Saborosa e picante em cada mordida.


O tempo contou que seu tesouro:
Um coração guerreiro,
Era invisível ao mundano sem brilho....
Incrível pensar na beleza invisível.
Sobre o prazer escondido de em você me perder
Sentindo em meu toque aos poucos umedecer.


O tempo falou do indefinido
Do que rótulos e padrões não dão sentido
Dos sentimentos e surpresas
que só um sorriso pode explicar...
Da felicidade e força que ganho

Ao te encontrar.

sábado, 4 de março de 2017

Em memória.

Busco cada lembrança da nossa infância
E a sua risada e ingenuidade é o que mais me marca.
Sempre doce e calmo, engraçado e bobalhão.

E depois de adulto todas as distâncias a vida nos impôs
Não ter tempo para lembranças é o que mais nos dói.
E quando notamos que alguém partiu...
Nada mais adianta fazer.
Tentamos chorar pra colocar pra fora
o mar escuro do nosso coração.
O que sobra é o desejo de que vá em paz:

Meu primo. Meu irmão. 

Discutindo o racismo texto 2 - Desconstruindo Ruth Catala



Viralizou desde sexta feira (03/03/2017), (recebendo a coroa de quase branca pela MBL) um vídeo de uma youtuber falando ainda sobre o caso da garota branca que foi supostamente agredida por usar turbante.
Neste vídeo, Catala fala sobre vários temas que a comunidade preta vem discutindo na internet, desmerecendo-os todos, e taxando as lutas de diferentes comunidades como “mimimi”.
Durante essa história toda do turbante, alguns vídeos falando sobre o tema circularam bastante pela net. A maioria desses compartilhadas por negros, (falando de uma esfera pessoal apenas um branco no meu ciclo de conhecidos compartilhou a visão de um negro sobre o caso. Enquanto vários outros brancos quiseram entrar na discussão contra o termo apropriação cultural e até mesmo negando o racismo.)
Já o Vídeo da Ruth está sendo compartilhando por negros, brancos e não negros. E grupos como MBL que se posiciona sempre contra as minorias estão a aplaudindo de pé.
Primeiro, vamos parar e pensar porque um negro falando de racismo é como se falasse ao deserto? Porque quando o negro sofre o racismo ou se pronuncia sobre ele, o silêncio e a inação é o que predomina?
Por outro lado, se um negro disser que nunca sofreu racismo, que não se ofende com piadas preconceituosas e que acha todas essas discussões sobre discriminação são mimimi, pessoas de todas as cores vão se pronunciar e concordar com ele?  Darei meu parecer sobre isso ao final do texto.
Agora, vamos falar dos argumentos de Catala; Ela inicia falando que não usa turbante como valor cultural, apenas por ser livre e por achar bonito. Ok, para uma angolana que cresceu rodeada de pessoas usando turbantes o valor do acessório é completamente diferente que para um brasileiro, já que o uso de turbantes durante muito tempo foi sempre segmentado e o uso dele sempre foi visto com maus olhos.
Neste trecho também ela começa o deboche sobre a postura dos negros, levando para o geral uma atitude que é bem pontual e que a chance de acontecer é bem pequena (um negro atacar uma pessoa branca por uma questão ideológica).
Ela contra argumenta a apropriação cultural dando o exemplo de “quantas coisas que não são de nossa cultura estão em nossos guarda-roupas e que nós usamos”.  Em uma sociedade igualitária onde o negro não foi escravizado e vários de seus costumes culturais reprimidos, esta fala seria corretíssima. Porém no nosso mundo, não é tão fácil buscar viver por nossa cultura. Em um contexto de globalização então... A nossa escolha sobre o que consumimos é bem reduzida.  
Novamente, ela parte do micro, falando sentimentalmente da pobre menina com câncer. (torço pela melhora dela e que ela possa usar turbante, peruca e seu próprio cabelo)
A gente como negro em todo lugar, temos sempre que tomar cuidado com nossas atitudes, pois cada erro nosso, nunca é só um erro pessoal. Se faço algo errado já ouvi várias vezes um “olha lá, serviço de preto”.  Então essa suposta ação de uma negra que ninguém sabe se aconteceu da forma que foi narrada, acaba sempre sendo ampliada a todos os negros e vão usar outro estereótipo “Nossa, esses negros são tão agressivos... como pode atacar uma menina com câncer por um simples turbante”
Se existe um movimento negro que está saindo pelas ruas cortando dreads, tranças e arrancando turbantes de todo branco que encontra pela frente, eu não estou sabendo.
Se esta é uma pauta em qualquer lugar, uma luta, como Catala fala no vídeo. Eu não estou sabendo também.
“é por causa de atitudes de negros como a que abordou a Tauane é que a luta de muitos negros é ridicularizada” ?
Não, com atitudes ou não como essa, a luta de negros é sempre ridicularizada. Como ela mesmo acabou de fazer. Usando novamente, uma perspectiva pessoal para falar de toda uma estrutura que tenta sempre desvalidar a luta do negro.
Meus amigos! Negros foram esquartejados, enforcados, queimados e até hoje são presos em postes ou assassinados por nada (apenas por serem negros, e por um branco ou não negro, achar que aquele não era seu lugar). Em casos como esses nunca alguém grava um vídeo para falar “Olha como todo Branco é perverso e violento...”
Ano passado, com a polemica do Oscar sem negros muitas pessoas falaram como Ruth “o mundo com tantos problemas e vocês brigando por indicação em Oscar?”
Não Ruth e turminha, a luta por menor que possa parecer é uma só: a luta é para sermos visto como seres humanos, de que nossas histórias possam ser contadas e que possamos ser o que a gente quiser, sem medo e ser reconhecidos. Será que sem a luta de Spike Lee ano passado Moonlight ganharia algum oscar este ano? Será que teríamos destaque para produções de negros como teve este ano? Claro que não.
Ai a nossa queridinha dos brancos vai dizer “para de gritar que você é negro e enfiar sua arrogância blablabla, coisa de cachorro que blablabla” E lista grandes personalidades que não brigaram por turbantes, como se existisse algum negro brigando na câmara dos deputados por uma lei que proíbe brancos de usar turbante...  E é aqui que a galera começa aplaudir. Porque é uma negra diminuindo negros. Uma negra falando para você calar a boca, algo que todo branco racista gostaria de dizer, porém pela luta de tantos, cada vez mais estamos tendo direito a fala.  Nesta parte ela busca demonstrar conhecimento das causas negras, citando a frase mais batida de Nina Simone... Fala pro negro ir estudar, o que é um conselho sempre válido. Mas como se só ela o tivesse feito, e que todas as outras pessoas são tapadas. 
Nossa amiga até aqui, já usou grande parte do repertório de pessoas preconceituosas “mimimi” “vitimismo” e o racismo reverso vem em seguida com as frases “Negros querem mostrar que podem escravizar os brancos?” “Todo mundo sofre algum tipo de discriminação” então parem de ser vitimistas...  Então esse tal de racismo é coisa pequena... uhum... senta lá Ruth.
Não vou perder tempo falando sobre Racismo estrutural e suas consequências. Mas em nenhum momento uma luta contra qualquer tipo de preconceito foi desmerecida por algum movimento negro. Nunca se ralativisou “ah mas o preconceito de gente gorda, gay ou gente alta é mimimi, vitimismo” Porque usam esse argumento para desmerecer o racismo?
Ai ela vai dizer que a discriminação hoje em dia não é tanto racial, é econômica... olha só! O capitalismo foi muito bom com os negros. Existem milhões de famílias negras produtoras de chocolate MILIONÁRIAS. Milhares de extratores de diamante negros, donos de mansões iates e etc. Dados comprovam que a renda média de negros, hoje em dia são igual ou maiores que a de qualquer branco. Só que não.
OS últimos 3 minutos de vídeo são uma idiotice atrás da outra atacando várias manifestações negras de maneira rasa. E a parte que tanto negros quanto brancos adoram. “olha, nem sempre que alguém pergunta se vc trabalha aqui, ela está sendo racista” Caramba Ruth, sério? E eu aqui sofrendo atoa todo esse tempo!
“Se um branco vestir uma camisa orgulho de ser branco e sair pela rua, é capaz de ser linchado pelos negros” Sério? Que país isso aconteceria?  Talvez se esse branco em questão for desfilar em uma periferia, ou comunidade negra, é bem capaz que não sofra nada, e que alguém mais esclarecido vá conversar com ele e dizer “Cara, eu não sei o que você quer aqui vestido assim, mas pode ser que alguém não seja tão legal quanto eu e não curta muito essa sua postura”. Se essa mesa pessoa andar na Av. Paulista hoje não vai acontecer nada com ela, e se alguém tentar ser agressivo, este orgulhoso branco vai ganhar escolta policial.  
Porque? Branco não é um grupo cultural, não é um país, não é um estilo de vida, não é um estilo de música. É a penas a cor de pele de algumas pessoas, que historicamente, passaram a comandar algumas áreas do globo terrestre. O que essa pessoa que tem orgulho de ser branca está querendo dizer? Ela está querendo apenas atacar as pessoas que não são.
É bem diferente de alguém vestir uma camiseta “orgulho de ser irlandês”, “orgulho de ser Padeiro”, ou até o “orgulho de ser negro” é tão bobo quanto qualquer outro exemplo. Mas é sim resistência, pois em um sociedade que te oprime por ter mais melanina, e que estruturalmente te ensina a ter vergonha de ter a pele escura. Se dizer orgulhoso do que você é, é uma pequena revolução. Uma vitória muito grande para este indivíduo.
Juntando com o deboche sobre uma discussão profunda sobre beleza, representatividade, marcas da escravidão que ela resume “papinho sobre a Solidão da mulher negra” (que a genialidade de Catala soluciona dizendo para as pessoas comprarem um cachorro.)
Chegamos na melhor frase usada por grandes preconceituosos “O grande problema de alguns negros é que eles mesmo se discriminam e acham que todos a sua volta estão fazendo o mesmo” Ela acabou de se resumir, eu imagino. Existem negros que aprenderam a ter vergonha de ser negros, outros negros que nem se consideram negros, isso acontece pelo racismo estrutural (novamente). Essas pessoas são massacradas com mensagens que a rebaixam, as vezes diretamente, as vezes subliminar mente. Elas aprendem a reproduzir o racismo e isso é mais uma perversidade do sistema que Ruth aponta como uma falha ética e de caráter de todo preto.
Após debochar do racismo que muitos sofrem dizendo que “nem sempre é racismo quando...” Ela finaliza sendo obvia e defendo o que todos defendem que “a luta pela humanidade”. Bravo, preta. Você criou um texto muito bem amarrado para agradar brancos e enganar negros como se você realmente estivesse falando para eles.
Concluindo.... porque negros, brancos e não negros vão compartilhar e aplaudir esse vídeo.
Primeiro, porque o texto de Ruth é bem decorado e escrito utilizando o deboche e o micro para falar do macro. Como todo preconceituoso ela busca frases e situações caricaturadas e estereotipadas para falar de um todo. E atribui a toda uma luta negra, questões pequenas ou tratadas de maneira rasa. Utilizando hashtags como Mimimi, vitimismo e etc.  (por isso os branco vão adorar).
Segundo, por ser negra angolana e por uma boa dicção e postura, Ruth inspira credibilidade. E para qualquer negro que não lê e estuda sobre o preconceito, racismo e tem consciência do seu papel social enquanto indivíduo negro. É ótimo ouvir alguém dizer que quem é engajado está de mimimi é vitimista. Pois para esse negro comum, que conta piada sobre racismo, e ri dos estereótipos do preconceito, que casa com a loira (pois o que conta é o amor e não a cor), para o negro bem sucedido e para o que não pensa sobre o preconceito em si. Para ele é ótimo ouvir alguém dizer que não está errado, que os outros são os que estão viajando. É a mesma postura que alguém que come carne e decide atacar um vegetariano ou vegano. A pessoa se sente mal por alguém estar fazendo algo que acredita, se sente inferiorizado por não tomar a mesma atitude e vai querer mostrar pro vegetariano que ele é incoerente, errado, tão assassino quanto quem come carne. E é por isso que os negros vão compartilhar e aplaudir. Porque alguém está o liberando de pensar sobre o racismo e do seu papel social enquanto negro em uma sociedade preconceituosa. Aquela pessoa que “nem é tão negra assim” também vai compartilhar, por não sofrer o racismo ou por ser bem aceita por brancos, também vai compartilhar e aplaudir.
Se você concorda com a fala da Ruth, você precisa muito seguir o conselho dela “vai estudar”
Se você é branco e está compartilhando e concordando com a Ruth, você só quer alguém que te redima do seu preconceito. Seja uma pessoa melhor.
E para todos, vamos parar de minimizar a luta do negro por igualdade contra o racismo. Isso não é mimimi, não existe vitimismo.